Cellos lança carta manifesto do II Encontro Mineiro de Paradas do Orgulho LGBTQIA+
O Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais (Cellos-MG) realizou, nesta sexta-feira (17), o II Encontro Mineiro de Paradas. A atividade reuniu 90 participantes, de 33 municípios de Minas Gerais. O evento foi realizado no auditório Bruno Alves Chaves, localizado na sede do Cellos-MG. Ao final, foi realizada uma carta manifesto que pode ser conferida na íntegra abaixo e pode ser assinada pelos movimentos através de um formulário.
Nós, representantes de Paradas do Orgulho LGBTQIA+, reunidos com a representatividade de 38 movimentos sociais, coletivos, associações, conselhos e militâncias e 33 cidades reunidas no II Encontro Mineiro de Paradas do Orgulho LGBTQIA+, reafirmamos que as Paradas e os atos políticos de defesa da democracia, dos direitos humanos, da cidadania e da vida.
Ao ocuparmos as ruas, exercemos um direito assegurado pela Constituição Federal. O direito de reunião pacífica, garantido pelo artigo 5º, inciso XVI, não é apenas uma garantia jurídica: é um instrumento de participação democrática e de afirmação da cidadania. Quando marchamos, ocupamos praças e avenidas, não estamos apenas celebrando nossas identidades. Tornamos nossas existências visíveis, denunciamos as violências que nos atingem, reivindicamos políticas públicas e afirmamos que nenhuma democracia será plena enquanto pessoas LGBTQIA+ continuarem sendo vítimas da exclusão, da discriminação e da violência.
Nossa história demonstra que nenhum direito foi conquistado sem organização coletiva. Cada avanço alcançado é resultado da coragem das pessoas que vieram antes de nós e da resistência permanente dos movimentos sociais.
Diante do fortalecimento do conservadorismo, do fundamentalismo e de projetos políticos que buscam restringir direitos e enfraquecer a participação popular, reafirmamos que nossa resposta continuará sendo a organização. É nesse sentido que fortalecemos a Rede Mineira de Paradas como espaço permanente de articulação entre territórios, de solidariedade entre organizações e de construção coletiva de estratégias para defender nossas vidas e nossa democracia.
Campanha, cenário eleitoral e organização territorial
Nosso voto está diretamente ligado às nossas vidas.
As decisões tomadas pelos governos e parlamentos interferem diretamente no acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à assistência social, à cultura, à segurança pública e aos espaços de participação social. Por isso, cada eleição representa uma disputa entre projetos de sociedade. Defender a democracia significa também defender que pessoas LGBTQIA+ possam viver com dignidade, participar da vida pública e exercer plenamente sua cidadania.
As paradas e os atos políticos mobilizam milhares de pessoas, fortalecem vínculos comunitários, produzem cultura, formam lideranças e organizam os territórios. Essa força não pode ser lembrada apenas durante as campanhas eleitorais nem utilizada como palanque por quem não assume compromisso permanente com nossos direitos. Queremos diálogo, mas exigimos compromisso.
Precisamos construir nossas próprias agendas políticas, apresentar nossas reivindicações às candidaturas e acompanhar os compromissos assumidos antes, durante e depois das eleições. Cada município deve elaborar uma pauta conectada às necessidades de seu território, fortalecendo a incidência nos conselhos, conferências, audiências públicas e demais espaços de participação democrática.
A Rede Mineira deve articular essas demandas locais e transformá-las em uma agenda estadual construída coletivamente, respeitando as diferentes realidades e fortalecendo todas as organizações, independentemente do porte do município.
As Paradas nunca foram neutras diante das violações de direitos. São espaços de disputa política, formação cidadã, construção de alianças e defesa da democracia. Nosso voto é instrumento de transformação, mas nossa participação política não termina nas urnas. Democracia também se constrói na organização cotidiana, na mobilização popular e na capacidade de exigir do Estado políticas públicas que garantam dignidade à população LGBTQIA+.
Da Rede Mineira à Federação Nacional de Paradas
Os desafios enfrentados pelas Paradas ultrapassam as fronteiras de Minas Gerais.
Em todo o país, organizações convivem diariamente com a escassez de recursos, a burocracia excessiva, tentativas de censura, boicotes institucionais, discursos de ódio e iniciativas que procuram descaracterizar ou criminalizar o caráter político das Paradas do Orgulho. Se os ataques são nacionais, nossa resposta também precisa ser.
Por isso, defendemos a construção de uma Federação Nacional de Paradas do Orgulho LGBTQIA+, formada a partir das organizações locais e das redes estaduais já existentes.
Essa Federação deve ser democrática, plural, transparente e comprometida com a autonomia das organizações. Não deve concentrar poder nem impor modelos únicos de atuação. Sua missão deve ser fortalecer as bases, conectar experiências, ampliar a formação política e técnica, fortalecer a comunicação em rede, acompanhar ameaças legislativas, defender financiamento público permanente e construir estratégias nacionais de incidência política.
Também deverá contribuir para preservar a memória das Paradas, produzir dados que fortaleçam nossa incidência institucional e compartilhar experiências capazes de ampliar a sustentabilidade das organizações.
Sua legitimidade dependerá da participação efetiva dos territórios. Uma Federação Nacional forte somente será possível com redes estaduais vivas, democráticas e presentes durante todo o ano.
Interiorizar as Paradas é fortalecer a democracia
As pessoas LGBTQIA+ vivem, trabalham, estudam e constroem suas vidas em todos os municípios brasileiros. Entretanto, o acesso aos direitos, aos serviços públicos e aos espaços de participação continua profundamente desigual.
Em muitas cidades do interior, realizar uma Parada significa enfrentar a ausência de apoio institucional, a escassez de recursos, o isolamento político, a pressão de grupos conservadores e, muitas vezes, o risco concreto da violência. Ainda assim, são essas organizações que seguem ocupando as ruas e reafirmando que nossas vidas importam em qualquer território.
Interiorizar não significa apenas ampliar o número de eventos ou reproduzir modelos das capitais. Significa reconhecer que cada território produz conhecimento, formas próprias de resistência e experiências fundamentais para fortalecer o movimento. Significa garantir apoio político, técnico, jurídico e comunicacional, ampliar o acesso à formação, democratizar o financiamento e reduzir as desigualdades que historicamente atingem as organizações do interior.
Nenhuma Parada é pequena. Nenhuma organização é menos importante porque possui menos recursos ou mobiliza menos pessoas. Em muitos municípios, ocupar as ruas continua sendo um dos atos mais profundos de coragem política, resistência coletiva e afirmação da cidadania.
Fortalecer as Paradas do interior é fortalecer a democracia brasileira.
Seguiremos em marcha
Reafirmamos nosso compromisso com uma Rede Mineira permanente, democrática, plural e enraizada nos territórios, capaz de fortalecer a disputa política, apoiar as Paradas do interior e contribuir para a construção de uma Federação Nacional comprometida com a autonomia das organizações e com a defesa intransigente dos direitos humanos.
Não permitiremos que nenhuma organização enfrente sozinha o conservadorismo, a violência política, a omissão do Estado ou a falta de recursos. Não aceitaremos que nossas Paradas sejam reduzidas a eventos festivos ou percam seu caráter político. As Paradas são manifestações legítimas do direito constitucional de reunião, da liberdade de expressão e da participação cidadã. São patrimônio da luta democrática brasileira e expressão concreta da resistência da população LGBTQIA+.
Seguiremos organizando nossos territórios, ocupando as ruas, formando novas lideranças e disputando todos os espaços onde nossas vidas são decididas. Porque nossa existência nunca foi uma concessão. Nossa cidadania nunca foi um presente. Ela foi construída por gerações que transformaram medo em coragem, silêncio em voz e invisibilidade em luta coletiva.
CELLOS MG – Belo Horizonte, 17 de julho de 2026